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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O troco

Ministério Público move ação contra Rede TV! pelo caso Eloá
Emissora transmitiu uma entrevista ao vivo com Lindemberg enquanto ele mantinha a ex-namorada refém

Solange Spigliatti, do estadao.com.br

SÃO PAULO - O Ministério Público Federal de São Paulo entrou com uma ação nesta segunda-feira, 1º, contra a Rede TV! por uma entrevista feita com a adolescente Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, e Lindemberg Alves, de 22 anos, e quer uma indenização de R$ 1,5 milhão para a sociedade por utilizar imagem da menor sem autorização judicial e transformar em espetáculo midiático o seqüestro da jovem. Eloá acabou assassinada pelo ex-namorado. Questionada, a emissora afirmou que ainda não foi informada da ação, mas que considera o ato uma "forma velada de censura".

A ação civil pública é por danos morais coletivos de R$ 1,5 milhão, equivalente a 1% do faturamento bruto anual da emissora, ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos. Durante o seqüestro, a emissora entrevistou a refém e o seqüestrador. A emissora também afirmou que assim que for notificada da ação vai se manifestar. No entanto, declarou que sempre vai defendar "a liberdade de expressão e o não cerceamento do jornalismo de informar os telespectadores".

Em entrevista ao estadao.com.br, a procuradora Adriana Fernandes, autora do pedido, afirmou que a liberdade de expressão não é absoluta e que, neste caso, deveria ter sido respeitado o fato de uma menor estar envolvida. "Na entrevista a repórter se colocou como intermediadora, colocando em risco de vida a menor e outras pessoas envolvidas na ação", disse.

O programa A Tarde é Sua, com apresentação de Sônia Abrão, exibiu duas entrevistas, uma ao vivo e outra gravada, com Eloá e Lindemberg, interferindo na atividade policial em curso e colocando a vida da adolescente e dos envolvidos na operação em risco, segundo MPF.

A procuradora também afirmou que, a partir do pedido, cabe ao poder Judiciário decidir se houve ou não abuso. Além disso, Adriana pediu à União a intimação de representantes da emissora, já que os serviços de rádio e televisão são concessões públicas.

Forma velada de censura? Não, não é velada. A Rede TV! está sendo explicitadamente censurada por ter feito algo extremamente indevido e desrespeitoso, tanto para com os "entrevistados", quanto para a família dos envolvidos e os telespectadores. A censura, aqui, atinge um outro nível. Paremos de remeter aos tempos da ditadura, como se só tivéssemos passado e nunca presente nem futuro. Não somos deuses. Às vezes precisamos, sim, de alguém que nos puxe pela gola da camisa.

Veja também:
Uma tragédia midiatizada
Uma tragédia midiatizada II
Alfinetada

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Alfinetada

Bom foi ver o comandante Eduardo José Félix, da Polícia de Choque, dando entrevista pra imprensa no último dia 21. Aliás, a matéria do Jornal Nacional sobre as dúvidas do sequestro é que trouxe declarações interessantes dele e de um comandante do Gate, Grupo de Ações Táticas Especiais. Duas delas, sobre uma mesma pergunta, me chamaram a atenção. Leia a transcrição:

"Outra questão: por que a polícia não usou um atirador de elite para atingir Lindemberg? “Se nós tivéssemos atingido com um tiro de comprometimento o Lindemberg, fatalmente os senhores hoje estariam questionando o Gate: por que não negociaram mais? Por que deram um tiro de comprometimento num jovem de 22 anos numa crise amorosa, que estava, num determinado momento da sua vida, fazendo algo que ele poderia se arrepender pelo resto da vida?”, disse o comandante Eduardo José Félix. “Faltou oportunidade. Ninguém tem a melhor visão que os policiais lá. Faltou oportunidade porque tinham obstáculos que poderiam desviar o projétil. Um deles era o próprio Lindemberg. O projétil o atingindo e transfixando é desviado”, explicou Adriano Giovaninni."

Ou seja, por responsabilidade. Não quero aqui defender a polícia, mas falar de unma mania terrível dos meios de comunicação de ignorarem seus próprios defeitos. A grande mídia quer, sim, criticar, questionar, e é este seu papel, certo? Quando há fundamento e construtividade, sim. Mas o comandante estava certo: as emissoras fariam o maior drama dos policiais que se adiantaram, não deram chace ao rapas e lhe desferiram um tiro no meio da testa, usando como desculpa (sic) preservar a vida das sequestradas. O pessoal dos Direitos Humanos, então... uma inflamação só. E o Gate seria bombardeado, desculpe o trocadilho, se a bala atingisse Eloá. Eles optaram por negociar, e o erro não foi esperar, mas, ao que tudo indica, uma ação mal planejada de invasão ao apartamento.

Confira a matéria em vídeo:

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Uma tragédia midiatizada II

Reportar o caso do sequestro de Eloá Pimentel e Nayara Rodrigues, em Santo André, ABC Paulista, na útima semana, é sinônimo de explorar um melodrama. Pelo menos para boa parte das empresas de comunicação. Normalmente o sentimentalismo fica mais para o lado dos canais abertos, enquanto os canais de TV fechada costumam ser lembrados por um melhor tratamento dos fatos; mas se isso fosse uma regra, como tal, haveria uma exceção.

No último dia 20 começou o velório de Eloá, morta após receber dois tiros disparados, segundo a imprensa, pelo ex-namorado e autor do sequestro, Lindemberg Alves. Como era de se esperar, em um caso de comoção nacional, o cemitério fica pequeno para tanta gente. Cerca de 30 mil pessoas passaram pelo Cemitério Municipal de Santo André, e a imprensa não fez pouco caso do fenômeno. Durante à noite, os telejornais fizeram diversas transmissões ao vivo de parentes, amigos, solidários e curiosos que, literalmente, passaram ao lado do caixão -- você apanharia de um segurança se ficasse mais de três segundos parado.

No dia seguinte a vigília midiática continuou e não ficou por menos. Pelo menos não para a Globo News. O canal SÓ transmitiu o fim do velório e sepultamento. Lá fui eu, de manhã, querendo saber o que acontecia no país e no mundo, para assistir um boletim do Em Cima da Hora. Mas que inocente eu fui: NADA MAIS acontecia, exceto a morte de Eloá. Foram não sei quantos minutos de diversas imagens do enterro ao vivo, com helicópteros sobrevoando o cemitério e câmeras próximas à sepultura registrando a emoção dos parentes e amigos da jovem.

Para completar, a repórter da Globo News, Ana Paula Campos, fez jus ao caso Eloá, ironicamente falando, e não deixou o sentimentalismo morrer. Despiu-se de sua veste de jornalista credível e pôs toda a emoção possível nos seus flashes ao vivo: falou da foto da menina na camisa, "com toda a sua beleza e juventude, relamente uma tragédia. Ah, claro. Como toda a imprensa parece ter questão de sublinhar, parece que a morte de um idoso / adulto nao teria o meso significado, a mesma dor, por mais que pertençam eles à mesma raça humana da adolescente. Muitos adjetivos cercaram a cobertura da repórter -- seria tensão de fazer um vivo sem muito roteiro?

Gancho sem ponta - No meio da cobertura, Ana Paula levanta a questão de um depoimento dado por um amigo de Lindemberg. Que ele era um bom garoto, mas que se desviou depois de ter acesso fácil a uma arma (como se o caráter de uma pessoa de formasse por seus instrumentos, não por suas escolhas). "É muito fácil ter acesso a ma arma aqui em São Paulo". E em como toda cobertura showrnalística, esquece-se o bom e o necessário. A Rede Globo passou por cima do depoimento e não questionou, em outra matéria ou em um debate ou entrevista em algum telejornal, por exemplo, como Lindemberg teve acesso à arma e porque/como um jovem consegue um revólver .32 assim que pensa em ter um.

domingo, 19 de outubro de 2008

Uma tragédia midiatizada

Há tempos a mídia precisava de um melodrama para sustentar a sua audiência. O fim do caso Isabela, com seu já previsto esquecimento, fez com que entrássemos em um estado latente de espera pelo próxima novela jornalística "espreme-que-sai-sangue-e-lágrima". Não podíamos ficar muito tempo... não deu outra: na tarde do último dia 13, a imprensa paulista achou sua menina-dos-olhos: o sequestro no ABC. O jovem Lindemberg Alves, de 22 anos, entrara no apartamento da ex-namorada Eloá Pimentel, 15, que estava com colegas de escola, para sequestrá-la junto com a melhor amiga.

O motivo seria puramente passional. Ele não aceitava o fim do namoro que durou 2 anos e 7 meses. Ciumento, manteve com a jovem sete anos mais nova que ele um relacionamento um pouco instável, que teria culminado com a negativa definitiva da menina não fosse o rombo que a decepção amorosa causou no coração do rapaz. Armado e decidido a que "ouvissem falar dele", ficou no apartamento por mais de cem horas, num sequestro que demorou mais de quatro dias e mobilizou um enorme contingente de policiais... e jornalistas.

No último dia 17, a tragédia tanto citada em expressão por eles: no meio de uma tentativa pateta de invasão por policiais do apartamento, Eloá foi alvo de dois tiros na cabeça e virilha que lhe custaram a vida. Nayara, a amiga, levou um tiro na boca e não corre risco de morrer.

O que fica disto, no que e compete a este blog, é o tratamento que a imprensa deu ao crime. Transformou Lindemberg em uma estrela, ao acompanhar cada suspiro seu e querer noticiá-lo. Não só imagens: ele conversou com jornalistas ao vivo -- Sônia Abraão, na Rede TV!. Ganhou magnitude nas coberturas das TVs Record e Globo. Ficara famoso, e agora dizia às vítimas que mantinha sob uma arma: sou o rei do gueto, o cara. Transmitimos nosa irresponsabilidade a ele.

Não, Lindemberg. Você se tornou o rei de tdo o país no trono da Imprensa. Você em si não foi endeusado, mas sua presença nos telejornais foi supervalorizada, considerada essencial para manter a audiência. Negociações, ameaças, gestos: tudo interessava dentro daquele sequestro. Inlusive, repetindo a formula aplicada no Caso Isabela, matérias sentimentais sobre a vida de Eloá, colocando-a como uma vítima boa e inocente do cruel ex-namorado. A mesma matéria que construía o obtuário da menina Isabela como se todos nós já a tivéssemos conhecido, e precisássemos rever sua vida do ponto de vista mais algodão-doce possível. Não se trata aqui de endeusar Eloá e endiabrar Lidemberg, mas de não pré-julgá-los e usarmos sua história, para o bem ou para o mal.

O SBT, surpreendentemente, optou por uma cobertura séria: sem entrevistas por telefone, sem exageros, sem acompanhamento full-time ao estilo Datena -- acabou-se pedofilia: as edições do Brasil Urgente desta semana foram sequestro puro. A exceção se deve, claro, ao episódio-de-deixar-qualquer-um-estupefato do confronto entre policiais na cidade de São Paulo na última quinta-feira (16).

Mais uma vez, um crime vira novela e show. Quanto mais vai se sugar até o completo esquecimento? Mas nós gostamos... Sem nem a conhecermos, enchemos o perfil da jovem no Orkut com recados de amor e saudades (?), além de criar/entrar em comunidades de luto. Um ciclo sem fim, como já disse sobre cassos asim anteriormente.

Quantas Eloás, Lindembergs e Nayaras não morrem todos os dias sem que a mídia lhes dedique sequer uma nota seca de vinte segundos? Não defendo a pulicação de tudo, o que é humanamente impossível. Mas, sim, o equilíbrio e sobriedade que necessitamos para enfrentar dias assim.