Há tempos a mídia precisava de um melodrama para sustentar a sua audiência. O fim do caso Isabela, com seu já previsto esquecimento, fez com que entrássemos em um estado latente de espera pelo próxima novela jornalística "espreme-que-sai-sangue-e-lágrima". Não podíamos ficar muito tempo... não deu outra: na tarde do último dia 13, a imprensa paulista achou sua menina-dos-olhos: o sequestro no ABC. O jovem Lindemberg Alves, de 22 anos, entrara no apartamento da ex-namorada Eloá Pimentel, 15, que estava com colegas de escola, para sequestrá-la junto com a melhor amiga.O motivo seria puramente passional. Ele não aceitava o fim do namoro que durou 2 anos e 7 meses. Ciumento, manteve com a jovem sete anos mais nova que ele um relacionamento um pouco instável, que teria culminado com a negativa definitiva da menina não fosse o rombo que a decepção amorosa causou no coração do rapaz. Armado e decidido a que "ouvissem falar dele", ficou no apartamento por mais de cem horas, num sequestro que demorou mais de quatro dias e mobilizou um enorme contingente de policiais... e jornalistas.
No último dia 17, a tragédia tanto citada em expressão por eles: no meio de uma tentativa pateta de invasão por policiais do apartamento, Eloá foi alvo de dois tiros na cabeça e virilha que lhe custaram a vida. Nayara, a amiga, levou um tiro na boca e não corre risco de morrer.
O que fica disto, no que e compete a este blog, é o tratamento que a imprensa deu ao crime. Transformou Lindemberg em uma estrela, ao acompanhar cada suspiro seu e querer noticiá-lo. Não só imagens: ele conversou com jornalistas ao vivo -- Sônia Abraão, na Rede TV!. Ganhou magnitude nas coberturas das TVs Record e Globo. Ficara famoso, e agora dizia às vítimas que mantinha sob uma arma: sou o rei do gueto, o cara. Transmitimos nosa irresponsabilidade a ele.
Não, Lindemberg. Você se tornou o rei de tdo o país no trono da Imprensa. Você em si não foi endeusado, mas sua presença nos telejornais foi supervalorizada, considerada essencial para manter a audiência. Negociações, ameaças, gestos: tudo interessava dentro daquele sequestro. Inlusive, repetindo a formula aplicada no Caso Isabela, matérias sentimentais sobre a vida de Eloá, colocando-a como uma vítima boa e inocente do cruel ex-namorado. A mesma matéria que construía o obtuário da menina Isabela como se todos nós já a tivéssemos conhecido, e precisássemos rever sua vida do ponto de vista mais algodão-doce possível. Não se trata aqui de endeusar Eloá e endiabrar Lidemberg, mas de não pré-julgá-los e usarmos sua história, para o bem ou para o mal.
O SBT, surpreendentemente, optou por uma cobertura séria: sem entrevistas por telefone, sem exageros, sem acompanhamento full-time ao estilo Datena -- acabou-se pedofilia: as edições do Brasil Urgente desta semana foram sequestro puro. A exceção se deve, claro, ao episódio-de-deixar-qualquer-um-estupefato do confronto entre policiais na cidade de São Paulo na última quinta-feira (16).
Mais uma vez, um crime vira novela e show. Quanto mais vai se sugar até o completo esquecimento? Mas nós gostamos... Sem nem a conhecermos, enchemos o perfil da jovem no Orkut com recados de amor e saudades (?), além de criar/entrar em comunidades de luto. Um ciclo sem fim, como já disse sobre cassos asim anteriormente.
Quantas Eloás, Lindembergs e Nayaras não morrem todos os dias sem que a mídia lhes dedique sequer uma nota seca de vinte segundos? Não defendo a pulicação de tudo, o que é humanamente impossível. Mas, sim, o equilíbrio e sobriedade que necessitamos para enfrentar dias assim.
