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domingo, 11 de maio de 2008

'O Professor e a Casa Grande'

O jornalista, doutor em Comunicação e Cultura e político Emiliano José escreveu um artigo, no site da revista Carta Capital, comentando o caso do ex-coordenador do colegiado de medicina da UFBA, Antônio Natalino Dantas. Na nova seção Diálogos, que possui diversos colaboradores, Emiliano traz o contexto histórico da casa grande e da senzala para a Bahia de 2008 e posiciona o médico na casa dos patrões. Com boas ironias, vale a pena dar uma conferida. Veja um trecho:

"E agora sentado na cadeira de balanço da Casa Grande, ouvindo acordes vindos do gramofone, quem sabe Bach ou Beethoven, diz que gosta mesmo, ouvido sensível, sofisticado que é, de piano e violino. Indignou-se porque até de Hitler o chamaram, os que se indignaram. Mas não há um quê de arianismo em tudo aquilo que o professor disse? É provável que ele creia que não. Que se creia um bom rapaz por tolerar gente de cor."

Leia a coluna na íntegra aqui.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Autoracismo na mídia baiana

O dia 30 de abril vai ficar marcado, pelo menos por um tempo, enquanto resistir na memória dos espectadores, como um dia em que preconceitos enrustidos vieram à mostra. Num tempo em que mal se fala de racismo -- tocar em preconceitos é muito complicado para alguns -- e, quando se fala, não se fala do racismo de negros sobre negros, um baiano mostrou seu preconceito contra os baianos.

Chamou-os de burros: disse que eles têm QI inferior em relação a outros estados. Afirmou, ainda, que o berimbau é uma prova da burrice dos nascidos no estado, visto que é um instrumento de uma corda só que não exige muito de quem o toca. Para completar, considerou o Olodum como uma escola de barulho -- "fica fazendo aquele pô-pô-pô-pô-pô-pô" -- cuja musicalidade de sua percussão é barulhenta por não ter o conjunto harmônico de uma sinfonia de Haydn ou Beethoven.

Antônio Natalino Dantas, autor das declarações acima, disse tudo isso para justificar o porquê do desempenho dos alunos de Medicina da UFBA no Enade ter sido baixo, nota 2 num universo de 1 a 5. Apesar de tudo, ele é baiano. Acadêmico. Coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia. E é também milhares de outras coisas que prefiro não colocar aqui, por tentar me ater à cobertura jornalística de suas falas e as repercussões. (Confira aqui as primeiras notícias do iBahia.com e do Aratu On Line)

As estarrecedoras declarações ganaram merecida atenção da imprensa. A rádio Band News FM, que foi quem diculgou o conteúdo, conseguiu logo depois uma entrevista ao vivo com o reitor da UFBA, Naomar Almeida Filho -- é bom ressaltar que uma entrevista ao vivo na Band News local não é, definitivamente, algo comum. Os telejornais do dia 30 fizeram matérias repercutindo as afirmações (assista à matéria do BATV aqui) e pautaram a rotina dos baianos.

Os dias seguintes é que são definitivos para se analisar a cobertura. Programas popularescos, como o Que Venha o Povo, se limitaram a mostrar, além das opiniões dos mais diretamente atingidos pelos discursos do professor, que era o óbvio, uma seqüência de Povo Falas. As declarações do professor foram incessantemente repetidas, com direito a efeitos sonoros. Outros telejornais mostraram entrevistas com o reitor Naomar, como o Jogo Aberto, e o diretor da Faculdade de Medicina, como o Bahia Meio Dia.

O que se espera é que a explicitação destes preconceitos enrustidos possa trazer à imprensa discussões bem pertinentes e amplas, como a visão do baiano sobre o próprio baiano; racismo além do negro; o papel da musicalidade e de outros elementos afro na cultura da Bahia, dentre outras.