Texto publicado no jornal A Tarde deste domingo, 08 de novembro:
O programa Pânico, que sempre tripudiou da privacidade de quem quer que um dia tenha tido 15 minutos de fama, resolveu dar lição de moral à população, ao resto da mídia e às autoridades públicas. Bastou um dos seus integrantes ser preso com cocaína para o programa de humor escrachado ficar seríssimo e bater pé contra o resto do mundo que divulgou ou consumiu a informação. Ora, não foi o Pânico que infernizou a vida da atriz Carolina Dieckmann e sua família, escalando até mesmo um edifício para filmá-la da varanda? Somente o impedimento judicial interrompeu o assédio.
O mesmo programa perseguiu o falecido Clodovil quase lhe causando um acidente de carro, com o propósito de fazê-lo calçar as tais sandálias da humildade. Uma unidade móvel da RedeTV fazia ponto em frente ao apartamento de Clodovil e em uma das investidas, exibida na TV, o programa usou um comboio de carros, um trio elétrico e um helicóptero para perseguir o costureiro no trânsito de São Paulo, com direito a fechadas em seu carro, tudo a pretexto de ridicularizá-lo e humilhá-lo.
MURRO – É também o Pânico que chega com suas câmeras e repórteres engraçadinhos nas praias badaladas do Brasil e até de outros países para ridicularizar o corpo das mulheres que não se encaixam no padrão Playboy. Não foi à toa que um dos integrantes da equipe levou um murro na cara, desferido por Victor Fasano e que o programa foi alvo de uma carta de repúdio de Wagner Moura, outra vítima da trupe, atingido na cabeça por um gel melequento, atirado pela equipe do programa, ao sair de uma cerimônia de premiação.
Mas como o corporativismo de qualquer integrante da raça que atende pelo nome de televisiva é sempre disforme, o mesmo Pânico que se acha no direito de tripudiar da privacidade de todo mundo subiu nas tamancas de raiva quando a imprensa noticiou que sua mais nova aquisição, um esquisitão que atende pelo nome de Zina, fora preso com cocaína.
HOLIFYIELD – É mérito não saber quem é o sujeito. Trata-se de um desses indivíduos inadjetiváveis que ficam famosos justamente pelo que não têm: cérebro. O tal foi contratado para ser freak porque gritou “Ronaldo’, de uma maneira tão abobalhada diante de uma câmera de TV que deixou claro que havia CID (Classificação Internacional de Doenças) para seu caso. Diante de qualquer grunhido, sílaba, palavra ou coisa pronunciada por Zina, os comentários de Reginaldo Holyfield na TV baiana tornam-se passíveis de decupagem e publicação em um livro que o consagrará à Academia Brasileira de Letras, onde obras piores com insetos no título já levaram péssimos autores a ganhar fardão de imortal.
Na primeira edição após a prisão de Zina, o Pânico deixou de lado o humor e passou infindáveis minutos atacando moralmente a imprensa, a TV, o diabo e o planeta por terem noticiado o fato. Sobrou lição de moral para todos os lados e quem duvidar do absurdo da coisa que vá resgatar a pérola no Youtube. A informação mais leve foi a de que ninguém poderia dizer um A do sujeito, pois 25% da população brasileira é igual a ele. Descerebrada e incapaz de dizer coisa com coisa? Não. Dependente química. Sim, o pânico acaba de revelar um assombro nacional: um quarto dos brasileiros é dependente químico.
A Polícia e o Ministério da Saúde tiveram sua incompetência ressaltada em entrevistas de populares e picaretas de plantão. Zina? Ora, foi descrito como uma criança, um ser puro com quem todos na equipe aprendem nobreza. Apresentadores foram às lágrimas diante da história trágica da condenação moral de um herói da TV.
BEATIFICAÇÃO - Alguém vê reação semelhante quando esses meninos ferrados das periferias são assassinados acusados de tráfico? Quem já viu a RedeTV comprando uma briga dessa natureza diante dos mortos nos tiroteios com os quais a TV faz a trilha sonora de fundo do jantar dos brasileiros? Entretanto, um desorientado pago para ser bobo da corte, o mais freak entre os freaks numa atração de TV, é preso por droga, vira notícia e um país inteiro é acusado de omisso, irresponsável e algoz desse sujeito. Por que não aproveitam o embalo da piada e pedem logo ao Papa a beatificação de Luciana Gimenez, a outra estrela santa e intelectual da casa?
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Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
domingo, 8 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Trash na rede
O trash ser moda na TV não é novidade. Programas como o Na Mira fizeram/fazem escola ao mostrar detalhes sórdidos do levantamento cadavérico do corpo de jovens vítimas de violência na capital baiana. Esta pauta é velha... mas recorrente. E na Internet, onde parece-se que se pode tudo, a vigilância sobre o mau gosto é ainda mais difícil.
O que dizer de um site de notícias que divulgou a foto de uma ossada de uma adolescente -- e ainda colocou a foto dela do lado, para que se soubesse quem seria a morta?
Não há muito o que dizer. As palavras que adjetivam tal ultraje já são conhecidas por quem tem ao menos um pouco de bom senso.
Aconteceu no sul da Bahia e este é o fato sórdido...
O que dizer de um site de notícias que divulgou a foto de uma ossada de uma adolescente -- e ainda colocou a foto dela do lado, para que se soubesse quem seria a morta?
Não há muito o que dizer. As palavras que adjetivam tal ultraje já são conhecidas por quem tem ao menos um pouco de bom senso.
Aconteceu no sul da Bahia e este é o fato sórdido...
domingo, 18 de outubro de 2009
As manchetagens do asterisco
Nossa, a cada dia me vejo inspirada a criar uma editoria própria para as manchetes do Correio*. Mas não que o merecimento de uma tag própria seja por mérito. E os deméritos foram tantos que nem dá pra lembrar -- mas cito alguns. O jornal já personificou o mal em um jovem acusado de pedofilia (você viu isso aqui), misturou Índia com o futebol baiano (você também viu isso aqui), tratou como novidade, quase um disparate, o caso de um policial militar prender outro em flagrante por desacato (desde quando isso não pode?), culpou Rubens Barrichelo pela mola que se soltou do nada e atingiu Felipe Massa ("viu o estrago, Rubinho?")... Isto em edições anteriores. A de hoje merece um intertítulo à parte.
Metralhadora - Já começa na capa -- Rubinho foi o alvo outra vez. Em referência ao fato de, até então, ser o único brasileiro com (fortes!) chances de vencer o campeonato da Fórmula 1 deste ano, o jornal escreve "O jeito é levar fé em Rubinho!", como se isto fosse algo doloroso, de quem não tem mais esperanças e está no corredor da morte.
Na página 3, a primeira notícia do jornal relata a guerra contra o tráfico de drogas na capital Rio de Janeiro, em que, além de muitos mortos, um helicóptero foi abatido a tiros esta semana. O título é megalomaníaco: "Pior, só no Iraque". Acho que eles são realmente míopes. Ainda sobre violência, os apelidos utilizados por criminosos e traficantes na Bahia virou tema de matéria nas páginas 12 e 13. O título: "Galera do mal viaja em cada apelido!" Tá, gente, espera aí. Recursos de oralidade são uma coisa. Linguagem popular é outra coisa. Mas este título é sem comparação... Só faltou o "vú?".
Não digo que o jornal é de todo ruim. Conheço ótimos profissionais que fazem parte de seu quadro. E o veículo também traz temáticas interessantes em parte de suas reportagens. Mas o problema é confundir linguagem popular e acessível com subestimação de inteligência. O povo pode ser povo, mas não é otário.
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Se quiser sugerir uma "manchete do Correio*" para virar post aqui no Metalíngua, sinta-se à vontade! Escreva para metalinguanaimprensa@gmail.com.
Metralhadora - Já começa na capa -- Rubinho foi o alvo outra vez. Em referência ao fato de, até então, ser o único brasileiro com (fortes!) chances de vencer o campeonato da Fórmula 1 deste ano, o jornal escreve "O jeito é levar fé em Rubinho!", como se isto fosse algo doloroso, de quem não tem mais esperanças e está no corredor da morte.
Na página 3, a primeira notícia do jornal relata a guerra contra o tráfico de drogas na capital Rio de Janeiro, em que, além de muitos mortos, um helicóptero foi abatido a tiros esta semana. O título é megalomaníaco: "Pior, só no Iraque". Acho que eles são realmente míopes. Ainda sobre violência, os apelidos utilizados por criminosos e traficantes na Bahia virou tema de matéria nas páginas 12 e 13. O título: "Galera do mal viaja em cada apelido!" Tá, gente, espera aí. Recursos de oralidade são uma coisa. Linguagem popular é outra coisa. Mas este título é sem comparação... Só faltou o "vú?".
Não digo que o jornal é de todo ruim. Conheço ótimos profissionais que fazem parte de seu quadro. E o veículo também traz temáticas interessantes em parte de suas reportagens. Mas o problema é confundir linguagem popular e acessível com subestimação de inteligência. O povo pode ser povo, mas não é otário.
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Se quiser sugerir uma "manchete do Correio*" para virar post aqui no Metalíngua, sinta-se à vontade! Escreva para metalinguanaimprensa@gmail.com.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Barrigada: um baiano entrega o outro
Não tem jeito, era previsível: o nascimento de Marcelo, filho de Ivete Sangalo com Daniel Cady (sim, imprensa, ele existe...), ia inflamar os colunistas e jornalistas de axé da Bahia em busca do furo perfeito -- a primeira foto exclusiva do menino. Mas, já diriam os sábios do jornalismo: a pressa é inimiga da apuração!
Desrespeitando esta máxima, o Holofote, do Bahia Notícias, deu uma barrigada -- e o termo não poderia ser melhor nestas circunstâncias. A revelação foi do Estourados, concorrente dele no Itapoan On Line. O fotógrado do Holofote fotografou uma pasta segurada por Daniel Cady em que constaria, na capa, a foto de Marcelo. Aí, pronto! Tascaram-lhe logo uma manchete no BN. Só que o pessoal do lado baiano de Edir Macedo na internet tratou de revelar que esta foto seria, na verdade, uma imagem de outro bebê que apenas ilustra a pasta, sendo igual para todos os pais.
Ficou feio para o Holofote, que teve que se corrigir depois (pelo menos isso...). Bastava fazer uma pergunta para algum funcionário da maternidade e este mico ainda estaria escondido na floresta...
Desrespeitando esta máxima, o Holofote, do Bahia Notícias, deu uma barrigada -- e o termo não poderia ser melhor nestas circunstâncias. A revelação foi do Estourados, concorrente dele no Itapoan On Line. O fotógrado do Holofote fotografou uma pasta segurada por Daniel Cady em que constaria, na capa, a foto de Marcelo. Aí, pronto! Tascaram-lhe logo uma manchete no BN. Só que o pessoal do lado baiano de Edir Macedo na internet tratou de revelar que esta foto seria, na verdade, uma imagem de outro bebê que apenas ilustra a pasta, sendo igual para todos os pais.
Ficou feio para o Holofote, que teve que se corrigir depois (pelo menos isso...). Bastava fazer uma pergunta para algum funcionário da maternidade e este mico ainda estaria escondido na floresta...
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Depois das "delegatas"...
... Eu já deveria ter imaginado. Eles não arranjariam personagens de só um lado da faca. Depois de veicular em agosto uma mega matéria com três mulheres qque seriam algumas das delegadas mais bonitas do estado -- e que são destaque de beleza e eficiência na Polícia Civil de Salvador, foi a vez de trazer colírios para os olhos femininos -- ou de homens gays, para ser mais politicamente correta.
O Correio* de ontem destacou alguns dos homens da Polícia Rodoviária Federal como agentes de muita beleza e ótimo trabalho nas estradas. O formato foi o mesmo do texto das "delegatas" (sic): matéria que realça atributos físicos e de trabalho dos personagens, além de, é claro, fotos posadas. (só que, no caso das delegadas, elas posaram em estúdio...)
Até aí, nenhum pecado em realçar qualidades físicas dos agentes rodoviários federais -- isso pode até ser positivo, levanta a autoestima deles, os coloca em voga, enfim. Mas, uma matéria como esta (e grande, ocupando pelo menos duas páginas do jornal além do destaque da capa) não tem razão para ser publicada com esta dimensão e este tema em plena segunda-feira! Que critérios de noticiabilidade são estes? "Caiu a matéria Vida/Mais do dia e vamos colocar uma que era do fim de semana"? Os jornais de segunda-feira costumam ser bem quentes, com saldo de crimes e acidentes de trânsito do fim de semana. Mas, o mais próximo de quente que o Correio* de segunda chegou foi subir a temperatura hormonal das mulheres que gostam de homens de uniforme.
Clique aqui para ler a matéria.
O Correio* de ontem destacou alguns dos homens da Polícia Rodoviária Federal como agentes de muita beleza e ótimo trabalho nas estradas. O formato foi o mesmo do texto das "delegatas" (sic): matéria que realça atributos físicos e de trabalho dos personagens, além de, é claro, fotos posadas. (só que, no caso das delegadas, elas posaram em estúdio...)
Até aí, nenhum pecado em realçar qualidades físicas dos agentes rodoviários federais -- isso pode até ser positivo, levanta a autoestima deles, os coloca em voga, enfim. Mas, uma matéria como esta (e grande, ocupando pelo menos duas páginas do jornal além do destaque da capa) não tem razão para ser publicada com esta dimensão e este tema em plena segunda-feira! Que critérios de noticiabilidade são estes? "Caiu a matéria Vida/Mais do dia e vamos colocar uma que era do fim de semana"? Os jornais de segunda-feira costumam ser bem quentes, com saldo de crimes e acidentes de trânsito do fim de semana. Mas, o mais próximo de quente que o Correio* de segunda chegou foi subir a temperatura hormonal das mulheres que gostam de homens de uniforme.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Novidade na Globo: Sagrado
A TV Globo estreou um novo programete na sua grade, o Sagrado. O objetivo do programa é ouvir reperesentantes de diversas religiões para saber suas abordagens sobre os problemas do mundo, as guerras entre países e cotidianas, a opinião sobre as questões do dia-a-dia. Qual o papel deles no nosso cotidiano e como eles nos ajudam a compreender/conviver com nossos problemas?
E são vários líderes religiosos mesmo: no primeiro programa, que você assiste abaixo, a voz foi dada a uma líder do candomblé. Mais à frente serão ouvidos representantes do catolicismo, budismo, judaísmo, islamismo... A atração só tem dois problemas:
* o horário incoveniente -- depois do Globo Rural, com o especial sendo reproduzido depois da Santa Missa em pleno domingo de manhã cedo!
* a duração -- a vinheta coloca a maior expectativa, mas os vídeos são de dois minutos... pouco se ouve dos líderes religiosos.
Mas a ideia é, sim, válida, o tema é interessante e trata-se de um produto relativamente diferente dos outros oferecidos pela emissora. Quem puder, vale a pena conferir. E se não der pra acordar, basta acessar o portal de vídeos da Globo...
Assista ao primeiro programa abaixo:
E são vários líderes religiosos mesmo: no primeiro programa, que você assiste abaixo, a voz foi dada a uma líder do candomblé. Mais à frente serão ouvidos representantes do catolicismo, budismo, judaísmo, islamismo... A atração só tem dois problemas:
* o horário incoveniente -- depois do Globo Rural, com o especial sendo reproduzido depois da Santa Missa em pleno domingo de manhã cedo!
* a duração -- a vinheta coloca a maior expectativa, mas os vídeos são de dois minutos... pouco se ouve dos líderes religiosos.
Mas a ideia é, sim, válida, o tema é interessante e trata-se de um produto relativamente diferente dos outros oferecidos pela emissora. Quem puder, vale a pena conferir. E se não der pra acordar, basta acessar o portal de vídeos da Globo...
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